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Sydney, N.S.W., Australia
Aos 12 anos de idade comecei como aprendiz com meu pai, na construção, reparação e afinação de Harmónios. Reparação e afinação de Pianos e Órgãos de Tubos. [instrumentos musicais] Aos 16 anos trabalhava por conta própria. Com 22 anos tinha a Carteira Profissional na especialidade de Rádio e Electrónica, que me permitiu trabalhar nos acordeões e órgãos electrónicos, amplificadores de som, e acumulei ao meu trabalho nos instrumentos, a manutenção do controlo electrónico das novas máquinas instaladas na “FACAR”, em Leça da Palmeira, Matosinhos. Aos 27 anos fui para a Holanda com uma bolsa de estudo onde me aperfeiçoei na Construção, Manutenção, Afinação e Restauro dos Órgãos Antigos ou Históricos. Trabalhei como Organeiro na Gulbenkian em Lisboa, de 1970 a 1974, e como Encarregado da Orquestra Gulbenkian, de 1974 a 1980. Em 1980 emigrei para trabalhar no restauro do "Sydney Town Hall Grand Organ". Em 1990 como "Mestre Organeiro" foi-me entregue, a conservação, manutenção e afinação daquele prestigioso Órgão, no qual trabalhei 31 anos, até me aposentar em 2011. com 72 anos de idade. Ver mais no meu CURRÍCULO.

Sunday, March 3, 2013

COMENTANDO SOBRE EMIGRAÇÃO



20-10-2012                                                                    
                                                                                   EMIGRAÇÃO

Recentemente, atribuindo-se à situação crítica que Portugal atravessa, muito se fala acerca do Governo incitar à emigração, como recurso de muitos jovens, e não só, que não encontram trabalho no seu País, e daí uma sentida frustração que lhes é imposta.

No tempo Salazarista, o Governo tentava impedir essa emigração, que embora fosse favorável a quem emigrava, era negativo para o progresso do desenvolvimento e economia do País.

Após os Governos que sucederam ao Dia do Oportunista em Abril de 1974, aqueles profissionais a quem pretendiam equiparar com os novos progressistas da oportunidade indiscriminada, viram-se na necessidade de, aproveitando as facilidades que lhes ofereceram, emigrar para outros países onde lhes foram oferecidas condições de honestamente poderem singrar económica e socialmente. Digo isto por experiência própria.

Evidentemente, emigrar não seria fazer turismo. O prazer de conhecer novas terras e novas gentes, não seria aquilo com que se deparava. Os sacrifícios começavam logo à saída, quando se deixava o meio a que se estava acostumado, os amigos e principalmente a família.

Nos países de acolhimento, por muito bem recebidos que fossem, apareciam de imediato outras dificuldades, como o idioma, acomodação, alimentação, e obviamente a saudade que só o imigrante sabe o seu verdadeiro significado.
A acomodação, que não é em hotéis de 5 estrelas, é por vezes o que mais se estranha à chegada, comparando com a casa que deixamos, e à qual estava-mos acostumados. A alimentação, se não forem os próprios a prepara-la, diferente daquela a que se está habituado, é um padecimento até que se consiga adaptar a uma nova realidade. Quem não se fizer acompanhar pela família mais próxima, então o mais mortificante ainda, é a saudade.

Emigrar ou ser imigrante, é uma experiência que requer uma decisão enorme de coragem e vontade de vencer, quando por motivos tão diversos são obrigados a procurar aquilo que o seu País não lhe pode, ou não lhe quer dar.

Aqueles que nunca da sua terra saíram, nunca poderão compreender o que no início é ser imigrante. Mas também para emigrar há que estar preparado para uma vida diferente, não só de muitas privações como dedicação ao trabalho, por vezes tão árduo para aqueles que na sua terra a isso não estavam habituados.

Como se pode verificar, até nos dias de hoje, aqueles que mais úteis poderiam ser ao seu país, sentem-se repelidos por não verem num futuro próximo melhores condições de vida na terra onde nasceram, se criaram e se educaram, depois de os terem enganado com uma faustosa e fictícia forma de viver, isto, nestas últimas décadas anteriores à crise actual.

Muito eu teria a contar, sobre os primeiros 5 anos na Holanda e os mais de 32 na Austrália, sobre o que eu passei, minha esposa e três filhos quando aqui chegaram. Hoje, graças a Deus, sem arrependimento do passo dado.

É da sabedoria popular que se diz: “Há males que vem por bem”. Muitos estarão agradecidos às circunstâncias que os incentivou a deixarem Portugal, para trabalhar e viver dignamente no estrangeiro, sem que no entanto sejam insensíveis ao estado em que se encontra o seu País de origem, por consequência do oportunismo torpe dos maus Governos que se dizem Democráticos.

Sydney, 20 de Outubro de 2012

2010, Férias gozadas.



Resumo sobre as nossas férias de 2010, na China e Europa

A todos os amigos com quem estivemos nestas férias de 2010, aos outros com quem não podemos estar, e ainda para aqueles que por curiosidade queiram saber sobre “as nossas férias”.

No verão de 2006, foram as férias que passamos em Portugal e Suiça sem termos feito qualquer paragem pelo caminho, como normalmente costumamos fazer.
Nessa altura tinha-mos previsto as novas férias para 2009 (3 anos depois) também no verão, uma vez que se o fizer anualmente se torna muito maçador devido à distância, além de muito dispendioso. Mas deveres profissionais e familiares, não o permitiram. Apenas em 2009, tivemos umas curtas férias de duas semanas em Nova Zelândia, a pouco mais de 5 horas de voo de Sydney, onde percorremos as ilhas Norte e Sul. País digno de ser visto, pois é maravilhoso. As viagens foram oferta dos filhos pelos nossos aniversários.

Neste ano de 2010, as férias poderiam novamente estarem comprometidas, uma vez que seria necessária a minha presença na supervisão e assistência aos trabalhos a efectuar no Órgão de Sydney Town Hall, pelo qual sou responsável pela sua manutenção, e foi uma das razões da minha vinda para a Austrália.
Porém, devido à morosa decisão da Câmara de Sydney, entidade responsável pela propriedade desse instrumento, em concluir o contracto com um possível novo contractor, uma firma local, obrigaram a que esses trabalhos que deveriam ter sido começados no ano passado de 2009, ainda estejam por começar, já no final deste ano 2010, e sem data ainda determinada.

Prevendo eu que tal iria acontecer, como é de esperar com burocratas, resolvi marcar as nossas férias de forma a coincidir com as conveniências do meu filho na Suiça. Fiz a reserva dos voos para sair da Austrália a 20 de Julho com paragem na China, em Beijing, (Pekin), passar três semanas na Suiça com o nosso filho, e chegar a Portugal em 15 de Agosto, onde estaríamos 6 semanas antes de regressar à Austrália com paragem novamente na China, mas desta vez em Shanghai (Xangai).

Porém, depois de tudo marcado, devido à notícia do agravamento do estado de saúde da mãe da Ester, com 96 anos de idade, tivemos de antecipar a viagem, para a encontrar ainda com vida.
Assim aconteceu, chegamos ao Porto no dia 12 de Junho, vindo a minha sogra a falecer no dia 26 seguinte. Deus permitiu que ela tivesse esperado por nós, e que a filha ainda estivesse à sua cabeceira durante 2 semanas.

                                                                      
                                                                  *   *   *       

Saímos de Sydney no dia 8 de Junho, com paragem em Beijing, por 3 dias. O voo durou 12 horas. Tomamos o autocarro do aeroporto para o terminal da cidade, e daí um táxi para o hotel que ficava praticamente no Centro. Isto nos permitiu apreciar o que se ia vendo pelo caminho, mais alguma coisa daquela imensa cidade.
A pé e utilizando o Metro, bastante moderno, com a ajuda dos chineses que pouco ou nada falavam inglês. Com o mapa da cidade e a mímica, conseguimos tudo o que queria-mos. Povo bastante simpático e amigos de nos ajudar. Visitamos os locais mais turísticos da cidade, como “Tian’anmen  Square” (creio que a maior praça do mundo), “Forbidden City” (a Cidade Proibida), etc. e fizemos algumas compras em grandes edifícios como “Honqiao Pearl Market” onde se podia comprar de tudo. Só um dos dias foi para ir ver e caminhar na “Great Wall of China” (Grande Muralha da China). Impressionante. Seria necessário muito mais tempo para apreciar todas aquelas grandiosidades históricas.

No dia 11 saímos de Beijing e voamos 10 horas para Frankfurt, Alemanha, onde tivemos de aguardar 7 horas e 20 minutos pela ligação com o voo para Portugal – Porto. Chegamos às 23.30 ao aeroporto Sá Carneiro, depois de um voo de 2 horas e 40 minutos, onde éramos esperados pela minha cunhada, irmã da Ester, e o genro que conduzia o carro.

No seguimento das 6 semanas das férias em Portugal, e devido aos acontecimentos, não conseguimos fazer todas as visitas previstas, nem atender a todos os convites que nos fizeram. Assuntos pessoais e familiares tiveram de ser resolvidos, e nem todos com o sucesso que se esperava. Para fazer algumas das visitas obrigatórias, fizemos deslocações pelo centro e interior do país, apesar do intenso calor que ali se fazia sentir nessa altura. Além do Porto e arredores, estivemos em: Vila do Conde, Viana do Castelo, Braga, Gerês, S. Bento da Porta Aberta, N.S. de Abadia, Caldelas, Ponte do Lima, Silva (Barcelos), Arouca, Monte Real (Leiria), Alfeizeirão, Rio Maior, Redondo (Alentejo), Lisboa e arredores.

Saímos do aeroporto de Lisboa no dia 24 de Julho para Zurich, Suíça, onde chegamos
2 horas e 35 minutos depois, e onde o Rui, nosso filho, nos aguardava. Ao fim de mais
40 minutos já nos encontrávamos em sua casa em ZUG, pequena cidade a cerca de 30 km. para Sul de Zurich. Pela primeira estivemos com a nossa última neta, a Amy, com
9 meses de nascida.  Foi ali a nossa residência durante 3 semanas. 

A primeira semana a Ester esteve doente, possivelmente com Salmonela, devido a uma refeição servida num restaurante em Odivelas, arredores de Lisboa. Teve de ser vista e medicada numa clínica local.
O tempo esteve fresco e chuvoso durante a maior parte do tempo, mas sempre que este permitia ainda visitamos algumas cidades e locais de veraneio na Suíça e Alemanha.    

Saímos da Suiça para a China a 15 de Agosto, tendo feito Zurich para Munich, Alemanha, com 1 hora de voo e de Munich para Shanghai com mais 11 horas de voo.
No aeroporto éramos esperados por um português, o Sr. Alexandre Lima, residente em Shanghai, que gentilmente nos acompanhou até ao hotel que previamente eu havia marcado, ficando perto dos muitos pontos de interesse, e a visitar.
Fizemos a viagem do aeroporto para a cidade no comboio de levitação magnética, o Magleve, que atingiu 437 km de velocidade numa distância de poucos minutos até ao
seu terminal na cidade.
Do terminal para o Hotel, foi ainda cerca de meia hora de táxi.

O Sr. Alexandre Lima, que fala fluentemente chinês, por motivo dos seus negócios e afazeres profissionais, não nos pôde acompanhar durante o tempo que ali estivemos, mas teve a afabilidade de diariamente nos chamar telefonicamente para o Hotel. Como um cuidadoso anfitrião, procurava saber como nós estava-mos, e sobre as nossas necessidades, até porque a Ester se tinha sentido mal do estômago no segundo dia da chegada, tendo ficado de cama no Hotel a maior parte desse dia.

Apesar de dois meios-dias de forte temporal, com muita chuva e trovoadas, não ficamos retidos no Hotel. Demos alguns passeios pelas redondezas, passeios nocturnos pelo centro mais turístico da cidade, “The Bund”, uma longa avenida junto do rio “Huang Pu River” com os cruzeiros de barcos todos iluminados, e “Nanjin Road”, a rua mais comercial na China, onde só se pode andar a pé. Passeamos também durante o dia por algumas das antigas ruas, como é usual ver-se nos filmes, e fazendo algumas compras.
Caso interessante, no meio de tanta gente só falando chinês, encontramos três homens que por ali passeavam e iam conversando em português. Não só eu fiquei surpreendido como eles também, quando eu lhes falei. Disseram-me serem marinheiros (estavam vestidos à civil) de uma Fragata da Marinha de Guerra Portuguesa, que se encontrava ancorado no porto de Shanghai, de passagem com destino a Macau.

Visitamos o Pavilhão Português na EXPO 2010, e falamos com alguns portugueses que de Lisboa foram para lá prestar serviço. Com um calor infernal, que em pouco tempo resultou num dos temporais, tivemos de estar algumas horas na fila para entrar no pavilhão. Não visitamos mais, porque debaixo daquele temporal e ter de estar em filas por horas, não era de suportar. As deslocações na cidade foram feitas de Metro, bem apertadinhos porque os passageiros eram sempre muitos, e de táxi onde o Metro não era viável. 

Para ter acesso ao Metro, (tanto em Shanghai como anteriormente em Beijing), os sacos e carteiras de mão tinham que passar por máquinas de Raios X, como as usadas nos aeroportos. Polícia e outros agentes de segurança viam-se por todo o lado, o que nos dava uma sensação de segurança. Enquanto nós passeava-mos nos arredores do hotel, e não só, lindas chinesas e muito novas, prostitutas, ofereciam-se mesmo quando eu ia acompanhado com a Ester. Facto que para nós não era inédito, pois quando estivemos anos atrás em Macau e visitamos uma localidade chinesa junto à fronteira, aconteceu algo semelhante.

O trânsito automóvel e ciclista, era um completo caos. Carros e bicicletas não respeitavam os sinais nem as passadeiras. As pessoas atravessavam na frente dos carros quando estes circulavam com os sinais verdes. Atravessavam as ruas fora das passadeiras e largas avenidas com imenso trânsito automóvel, numa verdadeira provocação ao acidente. Uma verdadeira anarquia como nunca pude imaginar, sem que no entanto nós tivesse-mos visto qualquer acidente!

Embora o custo de vida para os chineses ou para quem lá vive seja barato, o visitante estrangeiro tinha que regatear os preços, com a ajuda da mímica e da calculadora, como negociando com ciganos.
Apesar de não faltar onde comer, com muitos restaurantes por todo o sítio, o difícil era saber pedir o que se queria, pois as ementas eram em chinês. Encontrar restaurantes com ementas em inglês não era muito comum. Por vezes tinha-mos de pedir apontando para os pratos de quem estava a comer, ou para as fotografias expostas que não nos dizia se o que serviam era quente ou frio, se a carne era de vaca, porco ou galinha, já para não falar do peixe, que seria mais complicado.
Mais uma vez fiquei convencido, que para comer comida chinesa, só aqui na Austrália.
Pelo menos ao nosso paladar, facilidade na escolha e especialmente limpeza.

A 19 de Agosto, praticamente ao fim dos 4 dias deixamos Shanghai com destino a Sydney, após um voo de mais 11 horas, tendo chegado cerca das 8,30 da manhã do dia seguinte. A Beti, nossa filha mais velha estava à nossa espera e nos transportou para nossa casa onde encontramos tudo como esperava-mos.


Factos a notar:

   *  Gondomar (Porto). Estivemos com uma senhora amiga a quem eu há uns 45 anos toquei órgão no seu casamento. Perdemos o contacto, e há relativamente pouco tempo fui contactado pelo Consulado em Sydney, que me disseram ter recebido de Portugal um pedido de informação de como me poderiam contactar!
Depois da troca de vários emails, encontramo-nos em sua casa e com a sua família, que nos recebeu com toda a satisfação e amizade. Mais uma vez se confirma que “Uma boa amizade, nunca se esquece”, e “Quem procura sempre encontra”.

   *  Vila do Conde. Visitamos a minha irmã mais nova, (embora mais velha 9 anos do que eu) que se encontra internada num Lar privado, e um amigo, médico psiquiatra, filho dos nossos padrinhos de casamento, a quem não o víamos há mais de 40 anos. Ali tenho ainda primas, da parte da minha mãe que era natural de Azurara -Vila do Conde.

  *  Silva, freguesia a uns 4 km a Norte da Cidade de Barcelos, terra natal de meu pai, e onde eu passava parte das minhas férias quando na escola primária. Ainda hoje lá tenho velhos amigos e primos em segundo e terceiro grau, com os quais convivi desde há muitos anos, e seus descendentes. Numa pequena festa de família ali realizada no lugar do Seminário, vim a conhecer mais primos da parte do meu pai, os quais nunca antes tinha conhecido!

   *  Arouca. Aí fomos encontrar e visitar um outro amigo, Padre Laranjeira, do tempo em que foi coadjutor em Lavra. Há cerca de 50 anos que não tínhamos contacto!

   *  Monte Real, Leiria. Paragem obrigatória para visitar Joaquim, Maria Lavos e filhas, a quem consideramos e somos considerados como família. Ex-vizinhos porta com porta em St. António dos Cavaleiros, onde moramos durante 10 anos quando trabalhei na Fundação Gulbenkian.

   *  Alfeizeirão, visitamos a pessoa que nos deu toda a assistência na nossa chegada à Austrália em 1980: o Capelão Padre António Marques, que ali se encontra há já alguns anos. Pessoa de quem não nos esqueceremos de procurar todas as vezes que vamos a  Portugal, pois a gratidão deve ser reconhecida e nunca esquecida.

   *  Rio Maior, outra das paragens obrigatórias para visitar o casal Antonieta e Manuel Barbosa, amigos do tempo em que vivemos na Holanda. (1966 a 1970). Fazemos questão de os visitar sempre que vamos a Portugal.

   *  Em Redondo, interior do Alentejo, fomos visitar outro casal amigo, António e Constança Beira, do tempo em que estivemos na Holanda, e que já não nos víamos desde lá, há mais de 40 anos. Foi uma grande satisfação para todos, esse encontro ao fim dos tantos anos!
Isto só foi possível graças à Internet e ao Telefone, com a indispensável ajuda de pessoas amigas, em Portugal e na Holanda.

   *  Linda-a-Velha, Lisboa. Paragem absolutamente obrigatória, para visitar os dois irmãos, José e Celina Silva, que na Holanda, naquele tempo eram ainda solteiros e com quem chegamos ainda a conviver. Hoje cada qual com a sua família constituída e já avós, consideramo-nos como família. Com eles costumamos ficar relembrando tempos idos, usufruindo da sua franca e generosa hospitalidade, e sincera amizade.

     *  Ainda na zona de Lisboa estivemos com uma amiga natural do Porto, filha da família Loureiro, professora secundária que lecciona e reside a Sul do Tejo, que nos procurou, e a quem a não nos via-mos há cerca de 50 anos! Essa família sempre teve uma grande afectividade com os meus pais desde há muitos e muitos anos.

Outras visitas foram feitas, e muitas por fazer na zona de Lisboa, porque o tempo estava bastante limitado. Pelo mesmo motivo não foi possível fazer visitas no Algarve.
Eu sempre procurei recordar para viver, e mais, viver para recordar. Pois diz o ditado: “Recordar é viver”.

Mudando de Continente:

Para um jovem casal como nós, de 71 anos, fazer uma estadia na China, passeando por aqueles lugares onde a língua falada e escrita não dá para entender, especialmente quando se procuram direcções e transportes, não é uma aventura fácil. Mas se os nossos antepassados já o fizeram e com menos condições, refiro-me aos Descobridores dos Gloriosos Tempos, nos séculos há muito já passados, porque razão nós no tempo do GPS, Telefone, Internet, Skype, etc., o não conseguiríamos fazer?

Depois de procurar os lugares de interesse para ver, que não ficasse muito fora da rota na viagem para Portugal nosso destino, e para não repetir as rotas anteriores, através de informações turísticas pela Internet, procuramos também encontrar alguém de língua portuguesa a quem recorrer para obter não só melhores informações como qualquer ajuda em caso de necessidade. É para dizer que “quem vai para o mar, avia-se em terra”.

Pela Internet e Skype procurei pessoas que falassem a nossa língua, ou pelo menos inglês.
Encontrei o que esperava: portugueses e brasileiros que por lá trabalham e residem, em Beijing e em Shanghai; uns que me responderam outros que ignoraram após terem aceitado o pedido de contacto, onde eu dizia quem era-mos e para o que era. Claro que não fazia parte do pedido, a acomodação, alimentação, passeios, ou a sua perda de tempo para estarem à nossa disposição.

O resultado foi positivo. Talvez por na China se encontrarem mais brasileiros que portugueses, o maior atendimento foi de amáveis, prestáveis e atenciosos brasileiros, quer em Beijing quer em Shanghai. Porém aqui há a salientar, que em Shanghai, um português nosso conterrâneo, pois até é natural do Porto, foi quem nos esperou no aeroporto e nos acompanhou ao hotel! Não seria uma surpresa, mas pouco de esperar que pudesse acontecer nos dias de hoje, uma vez que nunca nos havíamos visto!

Nós tínhamos já por experiência as nossas férias anteriores na Nova Zelândia, onde não havia o problema da língua, pois ali fala-se o inglês. Apesar de talvez haver maior número de nomes portugueses e brasileiros, apenas tivemos assistência de duas famílias, uma portuguesa, o Sr. Francisco e D. Helena Mendes, e outra brasileira, o Sr. Sérgio e D. Vera Costa, com quem estivemos. Isto só em Christchurch, nos 3 últimos dias!
Com estas famílias que pela primeira vez nos conhecemos, temo-nos mantido em contacto, e esperamos manter uma boa amizade.

Sempre me senti com o dever de ajudar quem me procura, assim como me convenci que seria ajudado por aqueles a quem eu procurasse. Conhecidos ou desconhecidos, somos seres humanos e com inteligência para poder-mos conviver com o nosso semelhante.
Embora hoje em dia haja lugar para desconfiar de tudo e de todos, se nós não queremos confiar em alguém, quem poderá também confiar em nós? Sei que esta maneira de proceder não é compartilhada por toda a gente, mas é esta a minha maneira de ser, e até hoje não tive razão para lamentar. Após a nossa apresentação e contactos aceites, pela troca de correspondência electrónica e no seguimento desses contactos, se vai fazendo um juízo. Pois é costume dizer-se que “pela aragem se vê quem vai na carruagem”.
 
O já ter alguém a quem recorrer em caso de uma necessidade de maior, numa terra e língua desconhecida, China, era já uma aventura convidativa e de entusiasmar.

Repetindo o que disse atrás, a procura foi feita pelo Skype, baseada em nomes comuns portugueses, à qual responderam na sua maioria pessoas e famílias brasileiras. Portugueses em menor número, até porque deve haver mais brasileiros do que portugueses nessas regiões.

Em Beijing, que nós conhecíamos por Pekin, todo o apoio e informação foi dado por brasileiros. Entre eles, Sr. José Ricardo, de uma firma local de Advogados. Em Shanghai ou Xangai, também foram brasileiros quem mais responderam e quiseram dar a sua ajuda. O único português que me respondeu e deu o seu melhor apoio, inclusivamente pessoal desde que ali estivemos, foi o Sr. Alexandre Lima.
Não é minha intenção divulgar todos os contactos que mantive, mas não deixarei de salientar que encontrei muita simpatia, informação e ajuda da parte das pessoas brasileiras.
Com excepção da família Mendes na Nova Zelândia e o Sr. Alexandre Lima na China, não tive mais contacto com portugueses. Não porque talvez não se encontrassem por lá, mas por desinteresse ou falta da “boa vontade à portuguesa”.

Para mais facilmente me manter em contacto com a família e amigos durante as férias e as viagens, comprei em Beijing um telemóvel “iPhone” por um preço muito razoável, pois eu pretendia utilizá-lo com o Skype e Internet para me manter em contacto com a família e amigos, durante as férias e as viagens. Um quanto complicado para eu o usar, só na Suiça é que o meu filho o programou e ficou pronto a ser utilizado. No caminho de volta, também na China mas desta vez em Shanghai, quando ia a caminho da Expo dentro do abarrotado Metro, foi roubado! É para dizer que o comprei na China e na China ficou!!!

Ladrões também existem na China, como em qualquer outro país Comunista, Socialista ou Capitalista. Ainda se poderia admitir num país Democrático, onde os ladrões se encontram em maior quantidade, assim como num país Livre, onde politicamente a liberdade de roubar faz parte do sistema. Isto apenas pretende ser uma piada com referência aos Países onde os Governos se governam e o povo é sempre roubado.

Não direi que lá não queira voltar outra vez, porque faltaria à verdade. Ali muito há para ver, fazer e comprar. Só o comer tipicamente chinês, salvo raras excepções, é que não é de recomendar, pelo menos para nós europeus. 

Para terminar, quero aproveitar esta oportunidade, para agradecer às pessoas não só aqui citadas, mas a todas aquelas que de qualquer maneira nos deram informação, e inclusivamente se ofereceram para nos apoiar ou ajudar, dando-nos o seu contacto telefónico local para caso de necessidade, o que felizmente não foi necessário, mas que serviu para que nos sentíssemos mais confortáveis e confidentes  num país estranho.

A TODAS ESSAS PESSOAS DE BOA VONTADE, UM MUITO OBRIGADO. 




Manuel M .Saraiva da Costa,

SDYDNEY – AUSTRALIA

Dezembro de 2010



      Nota: Queiram perdoar algumas repetições, erros sistemáticos, sintácticos e gramaticais 
 que possam encontrar, mas a  falta de rotina na escrita do português, além do esquecimento
 de regras, é a desculpa  de quem além  de não ter  pretensões de ser escritor, também não lê
 muito e escreve pouco, a língua de Camões.

Saturday, March 2, 2013

Trio de Amigos de Infância!



3-3-2013
TRISTE NOTÍCIA
Escreve o último de um Trio de Amigos de Infância!
Hoje pela manhã, como de costume fui ver as mensagens  e os  e-mails que me são enviados. Faço-o todos os dias ao levantar e antes de me deitar. Uma rotina de quem deseja manter-se em contacto com todos aqueles que fazem parte da sua vida pessoal, familiar e profissional.
Umas vezes tomo conhecimento de notícias agradáveis, rotineiras, e aquelas que nos surpreendem e muito nos entristecem. Mas tudo isto só encontra quem as procura. Quem está longe da sua Terra, da sua Família e de seus Amigos, aqueles com quem conviveram e estimam, muitos deles desde a sua criancice, da sua adolescência, e os que ao longo da vida se cultivaram.
Infelizmente, há aquelas que mais nos chocam, como o desaparecimento de alguém a quem muito intimamente estivemos ligados, como familiares e esses Amigos.
A vida para nós enquanto a vivemos neste tempo que nos é dado coabitar, estará sempre cheia destas surpresas, agradáveis e desagradáveis, e só nos resta encarar a realidade de que se nascemos foi para viver e para morrer. Para uns a morte chega mais cedo, outros mais tarde, mas sempre no tempo que para nós nos foi destinado, e isto teremos de estar convencidos e preparados.
Três Íntimos Amigos de Infância nascidos no Porto nos finais dos anos 30, que sempre conviveram como um perfeito Trio de Amizade, apesar da distância em que me encontrava, um desapareceu não há muitos anos, outro recebi agora notícia que também deixou de fazer parte desse Trio. Resto eu, que saudosamente os mantenho nas minhas recordações e no meu coração.
Às famílias desses Amigos que mais sofreram e sofrem com as suas perdas, compartilho dessa dor e só me resta ser considerado por elas como aquele Amigo que por enquanto ainda resta desse Trio, que poderá ser um exemplo de integridade e lealdade para as Amizades de Hoje.


Manuel Maria Saraiva da Costa
Sydney – Austrália,  3 de Março de 2013

Monday, February 25, 2013

"MAS... com certas reservas"


26-2-2013
      “MAS…com certas reservas”  

Alguém me perguntou sobre o que quero dizer quando me declaro como “Católico convicto e praticante, mas…com certas reservas”.

A alguns já tive a oportunidade de os esclarecer, e para outros a quem não o fiz, aqui vai o esclarecimento: 

Desde muito pequeno, mesmo antes de ter ido para a escola primária, minha mãe me levava com ela a uma capela próxima, durante o mês de Maio para assistir ao Mês de Maria.

Todos os Domingos e Dias Santos, a família não se dispensava de assistir à Missa, e fazer parte em algumas cerimónias religiosas durante o ano.
Assim fui educado, e já depois de ter feito a Primeira Comunhão aos 10 anos, idade que era habitual nessa altura, continuei a frequentar a Igreja, o Oratório Salesiano nas Oficinas de São José, e mais tarde no Colégio dos Órfãos no Porto, onde aprendi a ajudar à Missa em latim, como era usado nessa época.

Sem qualquer presumível fanatismo, tenho seguido Religião Católica até aos dias de hoje, e espero continuar, embora com algumas reservas.

Todos os meus ascendentes eram Católicos, e eu sempre me senti vocacionado para seguir a mesma Igreja com a mesma convicção. Casei com quem partilhava do mesmo credo, e eduquei os meus filhos para que seguissem o mesmo. Todos os meus filhos estão baptizados, assim como os meus oito netos, na religião Católica.

Na minha carreira profissional, afinando e reparando harmónios e órgãos em igrejas por todo o Portugal, Holanda e Austrália, lidei com muitos sacerdotes. Entre eles, havia diferentes personalidades, uns mais brincalhões e com habilidade para cativar as pessoas e outros mais sisudos, mas sempre e dignamente mantendo o respeito e fazendo-se respeitar. Entre eles, os que procuravam evangelizar com princípios cristãos, e outros que apenas procuravam impor-se ao seu semelhante, conforme o dito “olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço”!

Conheci o Padre Alcino de Azevedo, um dos mais respeitáveis sacerdotes com quem convivi, que foi Pároco da Sé do Porto nos anos 50, onde fui “organista” e catequista. Anteriormente os Salesianos Padre Júlio Azimonti e Padre Lino Ferreira, a quem admirei a maneira e a dedicação no tratamento com os jovens, tendo sido meus guias espirituais.

O facto de ter nomeado apenas esses três, não excluo uns tantos outros com quem mantive relações de amizade e profissionais, a quem estimei e por eles fui estimado.
Nesse tempo havia um conceito de educação e respeito que recordo com certo apreço. Claro que havia, há e haverá excepções: aqueles abjectos que nunca deveriam ter existido e que são o asco e a vergonha da Igreja, por diversas razões que infelizmente todos nós conhecemos, mas que aqui não tem cabimento.

Padres de vocação e espírito cristão em todo o sentido da palavra, creio que é um facto raro nestes tempos que correm. Esses poucos que ainda existem poderão ser desacreditados por aqueles que o pretendem ser, e que não passam de falsos profetas.

Padres por profissão que se servem da sua ocupação na Igreja com a finalidade de se governarem em proveito próprio, ascorosos, enganando e extorquindo ricos e pobres, manifestando a sua opulência, prepotência, falta de honorabilidade ou dignidade, falseando assim a sua missão de seguidores de Cristo.
Neles se notam o seu endeusamento em vez da humildade que apregoam ao povo. Os seus maus exemplos de ambição e sem preocupações éticas para dominar e serem servidos nos seus próprios interesses materiais, não condizem com a doutrina de Cristo.

Eu, como Católico convicto e praticante, que assim quero continuar fiel ao catolicismo até ao final dos meus dias, lamento ter de o dizer, mas foi no conviver e no lidar com alguns Padres, ou supostos Padres, já para não falar de alguns dos seus superiores, que assim vim a constatar ao longo da minha vida profissional e pela idade que tenho.
Aqui poderia apresentar alguns exemplos e casos, mas não é essa a intenção ou a finalidade porque estou a escrever e lamentar situações menos felizes na Igreja Católica. Aliás, a História o tem confirmado.                

Como tive já ocasião de o dizer algum tempo atrás, a religião Católica Romana que professo, comparo-a a um Jardim ou a um Pomar onde se encontram lindas e perfumadas flores, frutos diversos e saborosos, embora se encontre espalhada pelo meio alguma podridão, ou sejam essas abjectas criaturas que pretendem servir-se da religião como ocupação e não por vocação, dando exemplos anti-cristãos e promovendo a descrença naqueles com fé mais debilitada. Esses ”profetas” considero-os apenas como excremento ou o estrume, como assim devem ser tratados, sem qualquer qualidade fertilizante.

Esta é a razão porque me considero Católico, religiosamente convicto e praticante, "MAS… com certas reservas".

NO MEIO SÉCULO DA ORQUESTRA GULBENKIAN

28-9-2012

NO MEIO SÉCULO DA ORQUESTRA GULBENKIAN

"MEMÓRIAS" DE UM ORGANEIRO PORTUGUÊS, QUE TRABALHOU COMO ENCARREGADO DA ORQUESTRA GULBENKIAN EM 1970 A 1980, ATÉ SE “REFUGIAR” NA AUSTRÁLIA QUE O ACOLHEU E LHE DEU O VALOR MERECIDO, E ONDE SE SENTIU REALIZADO PROFISSIONALMENTE, TENDO-SE APOSENTADO EM 2011 COM 72  ANOS  DE   IDADE,  TENDO  OCUPADO   UM   LUGAR  DE  PRESTÍGIO  EM  SYDNEY


    A MINHA “PASSAGEM” PELA FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN, EM LISBOA

Em 1964 estava a Fundação à procura de alguém com aptidão para dar assistência aos Órgãos de Tubos em Portugal, após a aquisição do novo órgão para a Catedral de Lisboa, e previsto o restauro de órgãos históricos em Portugal. Nesse tempo não havia ninguém com capacidade de o fazer.

Um dia fui abordado por um funcionário do Conservatório de Música do Porto, que eu havia frequentado, que tendo conhecimento do meu trabalho em pianos, órgãos e harmónios, me perguntou se eu estaria interessado numa Bolsa de estudo para a especialização no estrangeiro, em órgãos de tubos. Não perdi essa grande oportunidade, e fui então apresentado à senhora D. Ofélia Diogo Costa, pessoa muito conceituada no meio musical Portuense e da Fundação, que depois de me conhecer, foi com entusiasmo que deu conhecimento para Lisboa, que tinha encontrado quem reunia todas as condições necessárias e estaria interessado naquela especialização.

Aproveitando a passagem por Lisboa do senhor Flentrop, da fábrica de órgãos na Holanda e com quem a Fundação estava envolvida, tive uma entrevista com ele, tendo sido aceite todas as condições exigidas para essa Bolsa, e marcado o começo da minha “aprendizagem” na sua fábrica.

Durante os 5 anos de especialização na Holanda, passaram pelas minhas mãos o restauro do órgão da Sé de Évora, e dos dois órgãos históricos da Sé do Porto. O órgão do Grande Auditório, teve na sua construção a maior comparticipação do meu trabalho, sendo eu também o responsável pelo sistema eléctrico que dele faz parte.

A sua instalação no local onde se encontra e para o qual havia sido desenhado, foi feita sobre a minha orientação, assim como na sua conclusão assisti à intonação e afinação final, executada pelo principal dessa especialidade, da Flentrop, e com quem previamente eu havia trabalhado durante o tempo que me foi estipulado.

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No início de 1970, após a conclusão da Bolsa e dos órgãos da Sé do Porto, meu último trabalho como bolseiro, fui admitido como funcionário do Serviço de Música, onde fui integrado como organeiro, e me foi dada também como tarefa nos tempos livres, o cargo de Encarregado da Orquestra Gulbenkian, em conjunto com o respectivo Arquivo Musical.

Os tempos livres eram aqueles que não colidiam com as afinações e manutenção dos órgãos ao meu cuidado, novos e restaurados, assim como nas desmontagens e montagens dos órgãos que iriam ser restaurados fora do País, conforme os acordos estabelecidos com a Gulbenkian.

Os trabalhos relacionados com órgãos, ocupariam em média nessa altura, uns 4 a 5 meses por ano, sendo os restantes 7 a 8 meses ocupados com a Orquestra. Isto até 1974, vindo a minha situação a ser alterada pelos acontecimentos resultantes do 25 de Abril, quando me foi imposto que exercesse apenas uma das tarefas, neste caso a de maior percentagem em tempo, ou seja, ter de trabalhar unicamente com a Orquestra.

Esta situação manteve-se até ao final de 1979, quando tendo eu sido admoestado por defender a propriedade da Fundação, me indignei e aproveitei a oportunidade de continuar a minha vida profissional de organeiro, na Austrália.

Durante o tempo que trabalhei com a Orquestra, tive bons e maus momentos, quando tive de lidar com alguns dos seus instrumentistas de fraco carácter e pretensiosos, que tentaram sem  no entanto o conseguirem, que eu fosse um serviçal à sua disposição.
Outros, possuidores de dignidade profissional e humana, compreendendo o trabalho ingrato que eu tinha entre a Direcção do Serviço e a Orquestra, sempre me trataram condignamente, e franco entendimento, criando-se um apreço recíproco.

A certa altura, a minha relação com o Administrador do Pelouro da Música tornou-se crítica, quando me recusei a dar informações sobre o que se passava no meio da Orquestra, uma vez que o que ele pretendia saber sobre a Orquestra, nada tinha a ver com a actividade profissional. Como resultado da “falta de colaboração”, o ter sido recusado o meu pedido de regresso à minha profissão, não só referente aos órgãos, mas a cravos também.

Posteriormente quando me foi considerada essa possibilidade, era já tarde demais. Eu estava comprometido com a firma australiana empenhada no meu trabalho, e que já tinha tratado de toda a documentação para a emigração.

Devo acrescentar que antes de finalizar a licença sem vencimento pelo período de um ano que me havia sido concedida, dei a conhecer à Fundação que estaria disposto a regressar ao meu trabalho específico nos órgãos em Portugal, como reconhecimento e gratidão pelo que a Fundação tinha dispendido comigo e com minha família durante a Bolsa, se me fosse prorrogada por mais outro ano a licença sem vencimento, tempo esse que eu necessitava para recuperar o tempo perdido da minha profissão, nos 5 últimos anos de trabalho com a Orquestra.

Infelizmente ou Felizmente, essa concessão não foi considerada, e em contrapartida foi dada outra Bolsa a quem não possuía a mesma preparação e conhecimento. Simplesmente inacreditável, o que demonstra o pleno desprezo por quem com dignidade e lealdade não quis trair os colegas, fornecendo informações privadas de que poderia ter conhecimento, e que com o seu trabalho honesto e competente, dedicação, profissionalismo e lealdade, tinha servido aquela Fundação.

O começo do meu trabalho com a Orquestra, não foi de difícil adaptação, pois contei sempre com o apoio do então Director Artístico, o maestro Werner Andreas Albert que sem qualquer snobismo ou comprometimento para sua dignidade e posição artística, muitas vezes me ajudou nos trabalhos da colocação da Orquestra, quando muitos dos instrumentistas se recusavam a fazê-lo.

Sempre fiz o meu trabalho com responsabilidade, eficiência e dignidade, sem esquecer a gratidão que tinha para com a Fundação, e especialmente na pessoa da saudosa Directora do Serviço de Música, Dra. Maria Madalena de Azeredo Perdigão, por quem fui apreciado, e que viria a ser “saneada” pelos oportunistas da época “progressista” do 25 de Abril.

Ao seu sucessor, Dr. Luís Pereira Leal, devo-lhe a sua percepção pela ingrata tarefa que eu tinha com a Orquestra, e tenho a agradecer-lhe a confiança que depositava em mim, dando lugar a uma estima recíproca.

Posso aqui mencionar um episódio entre muitos outros, que poderá justificar essa confiança merecida:

Numa Semana Santa em que estava programado e anunciado um Concerto no Mosteiro da Batalha, com o Coro e Orquestra Gulbenkian, este esteve na iminência de à última hora ser cancelado, porque o pessoal que na Fundação estava encarregado do transporte e montagem dos estrados para acomodação dos coristas, se recusou a trabalhar por se encontrarem com direito a folgar nessa Quinta-feira Santa. Decisão tomada na véspera do Concerto anunciado. Direitos adquiridos e aprovados naquela ocasião pelas Comissões de Trabalhadores e Sindicatos.

O Director do Serviço de Música, e como tal, responsável pelo evento então comprometido, acedeu e confiou plenamente em mim, quando me prontifiquei e tomei o compromisso e responsabilidade para viabilizar esse Concerto, salvaguardando uma situação embaraçosa da qual não só seria prejudicial para toda a organização desse Concerto, como seria uma falta de respeito para com Público, implicando desnecessariamente o nome da Fundação Calouste Gulbenkian.

Com a ajuda de trabalhadores da Câmara da Batalha, que nesse próprio dia do Concerto, logo de manhã cedo estava com uma camioneta na Fundação,  fez-se o transporte de todo o material e instrumentos. Às 3 horas da tarde, chegada a Orquestra e o Coro, tudo estava pronto para começar o ensaio geral de colocação.

Para que tal fosse possível, o Encarregado da Orquestra não se importou de “comprometer o seu prestígio ou dignidade” quando trocando a sua roupa por um fato macaco, ajudou na carga e descarga de todo aquele material, e na montagem dos estrados, a par do pessoal camarário para o efeito ali disponível.

Talvez por esta e muitas outras actividades executivas que eu exerci, por na Holanda ter aprendido a trabalhar e perder aquele snobismo tão patente nos portugueses, tenha merecido a consideração e estima daqueles que em mim confiaram.

A minha frustração profissional como organeiro e a insatisfação de me sentir injustiçado, estava a levar-me a um estado crítico de depressão, o que só terminou quando eu em vésperas de deixar a Fundação, já com o Passaporte de Emigrante e Vistos de entrada na Austrália para mim, minha esposa, duas filhas e um filho, de 17, 11 e 5 anos, estava preparado a deixar o País no dia seguinte, se tal fosse possível.

Apanhado de surpresa, o Dr. Pereira Leal quando lhe dei conhecimento da minha intenção, não me deixou realizar os meus intentos, sem que para isso ele obtivesse para mim, uma licença sem vencimento que garantisse o meu retorno à Fundação, continuando assim o meu emprego, caso por qualquer motivo, até familiar, me visse obrigado a regressar a Portugal. Esta atitude jamais poderei esquecer e de lhe estar reconhecido.

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 Desde que cheguei à Austrália, já lá vão mais de 32 anos, sinto-me recompensado por tudo aquilo que o meu País me negou, e onde poderia ter perdido inclusivamente a saúde, devido à injustiça e à frustração profissional.
Aqui fui acolhido com dignidade e apreço, sendo-me oferecido o que o meu País não me quis dar, desperdiçando uma pequena fortuna na minha preparação.

Naturalizei-me em reconhecimento ao País que me deu a oportunidade de trabalhar e viver dignamente, de educar os meus filhos, proporcionando-lhes as suas formaturas, para que possam desfrutar de uma vida cómoda e feliz, assim como a todos os meus netos. Com a graça de Deus, todos nós bem sucedidos.

Presentemente com 74 anos, aposentado aos 72 mas sem pensão do Governo, posso dizer que vivo desafogadamente, sem luxos mas confortável, fruto das minhas economias resultantes do árduo e honesto trabalho durante 32 anos, empenhando-me em garantir a minha pensão de sobrevivência, ao contrário daqueles que nada fizeram, mendigando agora a sua modesta ou insuficiente pensão e sujeitos a um apertado controlo fiscal.

De Portugal, a terra onde nasci, tenho as minhas raízes, família e amigos, sinto Saudade da Juventude, da Educação e Formação que recebi, e a tristeza de ter de assistir ao estado caótico em que se encontra.

Manuel SARAIVA DA COSTA
                                                                  
Sydney, 28 de Setembro de 2012.


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Lista de alguns dos nomes que ainda me recordo, de colegas com quem trabalhei e que mereceram a minha simpatia, respeito e amizade.

Serviço de Música:

Dra. Maria Madalena Perdigão, Directora
Dr. Luis Pereira Leal, Diretor
D. Fernanda Mascarenhas, Secretária da Direcção
Dra. Maria da Graça, Assistente de Direcção
Dr. Ferreira Martins, Tesouraria
António Cardoso, Tesouraria
Hélder Fernandes, Secretaria
Madalena Bravo, Secretaria
E outros de quem o nome não me recordo.

Orquestra:

Elias Arizcuren (violoncelista)
Maria Macedo (violoncelista)
José L.Corral Arteta (violinista)
António Ferreira (contrabaixista)
Ricardo Ramalho (1o. flauta)
Otílio Martins (1o. fagote)
Júlio Campos (tímpanos)
Emídio Coutinho (trombone)
Uns quantos mais nos naipes das cordas e sopros, cujos nomes de momento não me ocorrem.

AGORA RESTA A ESPERANÇA DE QUE UM DIA TODOS AQUELES, SEM EXCEPÇÃO, QUE COLABORARAM COM A ORQUESTRA GULBENKIAN DESDE O SEU INÍCIO EM 1962, POSSAM FAZER PARTE TAMBÉM DA SUA HISTÓRIA. NÃO SÓ O PESSOAL ARTÍSTICO, COMO TECNICO E ADMINISTRATIVO.
50 ANOS É UM PERÍODO RELATIVAMENTE RECENTE PARA PODEREM SER PESQUISADOS TODOS OS DADOS NECESSÁRIOS. NO ARQUIVO DA ORQUESTRA, DEIXEI DOCUMENTAÇÃO REFERENTE AO TEMPO QUE ESTEVE A MEU CARGO E RESPONSABILIDADE

“Saudade, alegria, tristeza e raiva”

21-3-2012        


Foi com certa emoção, que vi este vídeo que foi gravado muitos anos depois de eu ter saído da Fundação. Esta artista, entre muitos outros solistas portugueses de destaque, foi uma das pessoas que passaram pelo “meu trabalho” apenas como solista convidada, a quem sempre lhe foi e é reconhecido mérito artístico, nacional e internacionalmente. 

    Uma recordação composta de: saudade, alegria, tristeza e raiva.


Saudade de alguns momentos felizes e gratificantes, apesar de um trabalho extenuante quando executado fora das instalações da Gulbenkian, especialmente em tournées, mas que me deram a oportunidade de conhecer “outros mundos e outras pessoas”.

Ter encontrado rostos neste vídeo que me fizeram recordar esses bons momentos que passei com muitos dos companheiros da Orquestra.



Alegria por ver neste vídeo a presença daqueles com quem trabalhei, e saber que ainda sinto a amizade de alguns dos dignos instrumentistas que já deixaram a orquestra, só lamentando não me ter sido possível obter os seus contactos. No entanto não perdi a esperança de ainda o conseguir.



Tristeza pelo tempo que dediquei à Orquestra Gulbenkian, ter sido reconhecido profissionalmente na função de Encarregado, tendo para isso aplicado todo o meu esforço na adaptação àquele lugar, e graças ao apoio prestado pelo colega meu antecessor, José dos Reis Colaço, já falecido, assim como à colaboração e adestramento do Director Artístico, o maestro Werner Andreas Albert a quem assisti durante os primeiros 2 anos, e por fim ter de me afastar de todos aqueles amigos que lá deixei.

Ainda a parte mais penosa para mim, o ter deixado a Fundação, por ter sido a única opção que tive para não perder as minhas capacidades profissionais de Organeiro.



Raiva por me ter sentido enganado e frustrada a continuação da minha verdadeira carreira profissional, quando ao fim de 5 anos ao serviço da Fundação Calouste Gulbenkian me foi exigido o abandono dessa mesma carreira, para me manter numa posição que não era aquela a prometida e para a qual me haviam preparado!

Por outro lado, os maus momentos passados quando após o 25 de Abril, alguns dos “artistas progressistas” que na orquestra se sentiam seres superiores, pessoas sem carácter, dignidade ou respeito pelos seus próprios colegas instrumentistas, tentaram causar-me uma situação desagradável no cumprimento dos meus deveres e de lealdade para com a Fundação.

Neste vídeo não pude ignorar a presença de um deles, que embora considerado como sendo um dos piores “artistas” na orquestra, foi um dos causadores da instabilidade nas relações entre colegas.



Saraiva da Costa,  Manuel





Sydney  21-3-2012